A morte simbólica contida no Suicídio – Uma visão Junguiana

Táina Sena
CRP:03/13463

Carl Gustav Jung, estudioso da mente tornou-se um pesquisador da Medicina. Inicialmente, foi seguidor de Freud, mas, por discordância de ideias, acabou por afastar-se e não se desligou de seus ideais e dos seus principais objetivos. Pesquisou e elaborou teorias sobre temas desprezados pelo meio científico e, por consequência, sofreu acusações e difamações.

A respeito do suicídio, Jung não criou nenhuma teoria ou regras rígidas para essa análise, mas deu suportes para que este tema fosse trabalhado. Através de toda a teoria de Jung, percebe-se que ele não teve como finalidade a “cura”, e sim o desempenho e busca das possibilidades criativas de cada indivíduo. Conduz à prática da psicoterapia para fora da psicopatologia e busca, assim, um olhar particular para cada caso, conferindo, a partir disso, sentidos e propósitos aos sintomas psíquicos apresentados. Pode-se perceber aí a atualidade de suas considerações, em um momento que a Psicologia tanto questiona os modelos mundiais de classificação de saúde e de doença.

Segundo Hillman (pós junguiano), o suicídio não deve ser visto apenas como uma saída da vida, e sim como uma entrada na alma e uma entrada na morte. A alma é vista como o centro da vida psíquica, no qual todo fenômeno psicológico deve ser referido a ela; a alma busca, então, nas tentativas de suicídio, dar um novo significado à vida. Nessa perspectiva, o psicólogo deve observar a simbologia que envolve o suicídio, uma vez que para cada pessoa há um simbolismo diferente, pois cada um organiza sua problemática e sua situação pessoal de maneira singular. Não há como esquivar-se da morte em seu atendimento, e isso pode causar no psicólogo certa angústia. Quando o psicólogo se identifica com o ideal salvacionista, ele nega a genuinidade da perspectiva suicida, ao se permitir adentrar em sentimentos de impotência, identificando-se com o anseio dos familiares do paciente. Todo esse processo induz o profissional a buscar uma saída para o problema que não o obrigue a lidar direta ou indiretamente com a morte.

Dessa forma, é importante que o psicólogo trabalhe o morrer e suas implicações, a morte e o seu significado. Eles não devem temer a morte, e sim tomá-la como necessária aliada na profunda reflexão que seu paciente anseia sobre si mesmo e a situação que está vivendo. O arquétipo da morte está presente desde o nascimento e permeia toda a trajetória do ciclo de vida, transformando-a de modo simbólico e subjetivo, além de construir mais vida com o espaço para o novo.

 O suicida busca, então, uma saída para uma situação de conflito que lhe causa dor e vê somente na morte o único instrumento para alcançar essa libertação. O psicólogo o ajudará a visualizar outras saídas, que não sejam a morte biológica. Sem estar preso somente à morte física, o profissional e seu paciente podem perceber e aceitar que sim, uma morte talvez precise acontecer. Mas uma morte simbólica, uma morte de partes ou de aspectos conflituosos de sua vida. Uma morte, talvez representada como uma possibilidade de renascimento.

Para o psicólogo junguiano, pode ficar evidente que uma morte deva acontecer, mas não necessariamente a morte física. O suicídio não deve ser apenas visto como uma saída da vida, mas como uma entrada na alma, ou seja, um verdadeiro mergulho em si mesmo. Muitas vezes, o contato com a morte, se bem desenvolvido, pode causar um amadurecimento psíquico para o indivíduo, por levá-lo a reflexões as quais não está acostumado. Então pode ser uma etapa de grande significância para o seu processo de individuação (segundo Carl Gustav Jung, processo pelo qual o ser humano chega ao autoconhecimento). E não deve ser tomado apenas de forma literal, mas simbólica, considerando-se que o suicídio, como qualquer outro ato desta magnitude – e que interfere de forma definitiva na vida humana –, terá sempre um simbolismo único para cada indivíduo.

A psicologia junguiana trabalha com conceitos opostos e, assim, o termo “morte” traz à mente outros termos, como “renascimento” e “transformação”. Caberia, portanto, o questionamento: Qual seria a real demanda desse paciente: a morte propriamente dita ou uma transformação, um renascimento, uma mudança? Deverá o psicólogo junguiano descobrir ou ajudar o paciente a descobrir o que a sua “alma” (essência, subjetividade, profundidade) anseia ao desejar a morte e, então, caminhar com ele nesse processo, mostrando alternativas para esse renascimento, sem precisar que a morte física seja alcançada.

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Referências:

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